Pokémon GO: 10 anos jogando devagar e sempre
Uma década de caminhadas, raids e muita frustração com Fly. A história de um jogador canela que não desiste — e que começou essa aventura ao lado do filho.
por Fernando Fasolo
Julho de 2016. O mundo parou. Pessoas andando pela rua olhando pro celular, grupos se formando em praças, adultos correndo atrás de Pokémon invisíveis. Eu era um deles — e ao meu lado estava o Fasolinho, com nove anos, mais animado do que nunca.
Dez anos depois, ainda estamos aqui.
O que é ser “canela”
No universo do Pokémon GO, existe uma hierarquia não-oficial. De um lado, os whales — jogadores que investem pesado, participam de todos os eventos, têm coleções impressionantes. De outro, os canelas — jogadores casuais, que jogam no ritmo da vida, sem passar horas otimizando IVs ou madrugando em raids.
Eu sou canela com orgulho.
Não porque não me importe com o jogo. Me importo muito. Mas porque jogar tem que caber na vida, não o contrário. Então jogo quando saio para caminhar, quando levo o cachorro, quando estou numa fila. Devagar e sempre.
Em 10 anos acumulei memórias que nenhuma Pokédex consegue guardar.
O problema chama-se Fly
Se você joga Pokémon GO, já topou com eles: jogadores que aparecem em qualquer lugar do mundo sem sair do sofá. Um cara em Curitiba que de repente está em Tóquio. Uma conta que captura lendários de raids simultâneas em continentes diferentes.
São os Fly — e eles arruínam o jogo pra quem joga de verdade.
Chega na raid local, vê que o Pokémon raro foi capturado por 40 pessoas que moram no seu bairro, mas você nunca viu na vida. Tenta participar de um evento regional e a disputa é com contas automatizadas que já estavam lá. É desanimador.
Mas a gente continua. Porque o jogo é bom quando você foca no que importa: sair, explorar, jogar com quem você gosta.
Uma década de momentos
Tem algumas cenas que ficaram gravadas:
O verão de 2016 — ainda na fase inicial, quando todo bairro virou um mapa do tesouro. A gente saía de madrugada (sim, de madrugada) para pegar Pokémon com um grupo de vizinhos que mal se conhecia. Curitiba nunca pareceu tão pequena.
A primeira raid lendária — quando Articuno apareceu, foi um caos gostoso. Organizar um grupo, combinar horário, chegar no ginásio e torcer para o jogo funcionar. Não funcionou na primeira tentativa. Funcionou na segunda.
Pokémon GO Fest — participamos de dois. O caos do primeiro evento ainda é assunto de conversa. O segundo foi melhor. A Niantic aprendeu, nós aprendemos.
As caminhadas com o Fasolinho — esse é o que mais fica. Rotas que a gente percorre há anos, cada PokéStop memorizado, cada ginásio com uma história. O jogo virou pretexto para caminhar juntos quando ele poderia estar trancado no quarto.
O Primal e a saga da Kyogre
Este ano, a Niantic trouxe os Primals de volta em raids. Primal Kyogre, Primal Groudon — os chefes supremos das versões Omega Ruby e Alpha Sapphire, agora rugindo nas telas do celular.
Para um canela como eu, participar de uma raid Primal é uma operação logística. Precisa de grupo, de coordenação, e de uma boa dose de sorte para o servidor não cair no momento crucial.
Conseguimos o Groudon Primal. Foi épico — no sentido literal, não no sentido de meme. A batalha durou até o limite, gastamos todos os itens, e no final a Poké Ball fechou. Aquela vibração háptica nunca foi tão satisfatória.
A Kyogre ficou para o Fasolinho contar.
O que 10 anos ensinam
Pokémon GO mudou muito. A interface melhorou, os eventos ficaram mais criativos, o PvP chegou, a Liga de Batalha consumiu incontáveis horas e paciência.
O que não mudou: a razão pela qual a gente continua jogando.
Não é pela Pokédex completa. Não é pelo ranking de batalha. É pelo pretexto de sair, de caminhar, de explorar cidades novas quando a gente viaja. É pela mensagem do Fasolinho às 7h da manhã: “pai, tem um Pokémon raro aqui perto, você viu?”
Dez anos. Devagar e sempre.
E a jornada continua — um PokéStop de cada vez.